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domingo, 16 de outubro de 2011

Cansada

O Cuidador, que é o papel que eu desempenho, sobretudo no fim de semana, a tempo inteiro, vai perdendo, gradualmente a noção do tempo disponibilizado e absorção do doente. Toda a minha vida é gerida em função do que tenho de fazer e tratar para o bem estar da Avó. Nem à casa de banho vou com a regularidade habitual. Esqueço-me. Já não tenho tempo para mim. Tenho sim, uma grande vontade de sair, de apanhar ar, de caminhar mas, tenho de me limitar à capacidade dela.

 Ontem, levei-a a dar uma volta, sobretudo porque anda sempre de carro. Levei-a a um Jardim que foi renovado, perto do rio, um local muito agradável mas, quando encontrou a neta, queixou-se que tinha andado às voltas, como uma crítica. Em todo o percurso repetiu as mesmas histórias, vezes sem conta. Há alturas em que me sinto muito mal de estar tão saturada, que tenho vontade de fugir. Mas, não sou capaz de lhe dizer algo que interfira no relato gasto e cansado.
Qualquer acção em que penso 1º em mim, deixa-me com um sentimento de culpa muito intenso. Já não sei viver de outro modo.

O declínio cognitivo de que falava o Neurologista, não se nota, a não ser na repetição das "estórias". Contudo isso já acontecia há alguns anos. Autonomamente, vai ver a roupa dela e se precisa de um botão, ela cose-o, ou, um ponto aqui ou acolá. As pequenas tarefas ressurgiram com assertividade. Por vezes perde-se no que estava a fazer e pára. Aí, eu intervenho e "acordo-a", lembro-a do que estava a fazer e ela retoma com naturalidade.